Qual o valor do amanhã?

Livro do economista Eduardo Giannetti discorre sobre os juros. Mas não os juros dos banqueiros, e sim os de nossas vidas cotidianas

Por Carlos Eduardo Moura

Ao lançar “O Valor do Amanhã” (Cia. das Letras), o economista Eduardo Giannetti não se dirigiu ao leitor habitual de sua área, alertando no prefácio tratar-se de uma obra destinada a leigos. A ideia que o animava era bastante simples: falaria de juros, sim, mas não da maneira árida como se espera de um economista.

O valor do amanhã, livro de Eduardo GiannettiGiannetti parte do princípio de que todo ser humano é um economista intuitivo. O livro não trata de juros como uma instituição inventada por banqueiros, mas, sim, como algo natural. As indagações principais são: viver o dia e simplesmente não se preocupar com o amanhã ou viver cada dia pensando no amanhã? Abrir mão de algo no presente pensando no futuro ou usar todo o disponível no presente da melhor forma possível? Viver agora e pagar depois ou pagar agora e viver depois?

A ideia de juros, diz ele, está presente em diversos processos naturais. A formação de gordura é um exemplo. Nosso corpo armazena calorias em excesso para consumo futuro, funcionando como uma espécie de “poupança”.

O envelhecimento é outro. Nossos genes estão programados para dar seu melhor durante a juventude, ainda que isso implique custos futuros. A conta é descontada na velhice, com a decadência do corpo. Viver agora, pagar depois.

Há uma boa razão para que nossas células dêem o seu melhor o quanto antes. Nosso passado ancestral exigia grande vigor físico na juventude. Por isso, “o corpo jovem toma recursos adiantados do corpo velho, faz a festa, canta a vida, lança fogos e balões a que tem direito e empurra o ônus da dívida para o amanhã”.

Mas, ao passar dos anos, o ser humano se distanciou de seu passado ancestral e passou a fazer escolhas pensando no futuro, de forma mais ou menos sistemática. “O pano de fundo dessa mudança radical foi a ampliação da percepção do tempo – um extraordinário alargamento da faculdade de imaginar o futuro e reter na memória a experiência passada visando conhecer e modificar o amanhã”.

Mundo vegetal

O mundo vegetal, pródigo em poupar e mudar tendo em vista sua sobrevivência, dá outros exemplos interessantes. Certas plantas e árvores, antes de iniciarem a desfolha, têm o cuidado de evacuar das folhas seu conteúdo, absorvendo assim os nutrientes – sais minerais e nitrogênio – em seu metabolismo. Esses vegetais estocam os recursos no tronco ou no caule para uso futuro.

Árvores frutíferas também têm outro mecanismo curioso. Para elas, apenas produzir sementes não basta. É preciso espalhá-las para que possam germinar. “Elas clamam, por assim dizer, por serem comidas e saboreadas, mas não sem antes fixar uma condição crucial.”

“As árvores que dão frutos não se limitam a praticar a arte e o engenho da paciência em seu metabolismo – elas ensinam aos animais o saber esperar.” A fruta madura é aquela cujas sementes estão no ponto certo para serem espalhadas por animais e insetos. Quando verdes ou passadas, têm gosto amargo. Quando maduras, são a recompensa que os vegetais oferecem aos que, agindo no momento certo, involuntariamente contribuem para a manutenção do seu ciclo reprodutivo.

Vida breve

Apesar de não sabermos por quanto tempo viveremos, que peso atribuir ao futuro, em contraposição ao momento? Seria mais interessante colocar “mais vida em nossos anos” ou “mais anos em nossas vidas”?

Nos últimos tempos, registrou-se um rápido aumento da longevidade. Nunca foi tão importante planejar a vida para daqui a 30 ou 40 anos. A média de vida mundial passou de 53 anos em 1960 para cerca de 67, hoje.

E viver por mais tempo quer dizer estar preparado para uma nova vida depois da aposentadoria. “Um repensar de valores e formas de vida e um conjunto de providências práticas que dizem respeito à maturidade e à velhice, mas que deveriam se fazer presentes desde as etapas formativas da infância e juventude”, diz Giannetti.

(Publicado no jornal do Sescon Campinas, março de 2012)

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